Em ano de lucro recorde, planos de saúde retêm R$ 5,8 bilhões de hospitais privados

Publicado em 28/03/2025 às 22:23:48
Em ano de lucro recorde, planos de saúde retêm R$ 5,8 bilhões de hospitais privados

Hospitais de ponta no Brasil enfrentaram um aumento significativo nas retenções de pagamentos por parte dos planos de saúde em 2024, totalizando R$ 5,8 bilhões. Esse cenário ocorre em um momento em que as operadoras de saúde registraram um lucro de R$ 10,2 bilhões, o melhor resultado desde o início da pandemia de Covid-19.

Um levantamento inédito da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), que representa 85 instituições, revela que o montante retido correspondeu a 15,89% do total que os hospitais deveriam ter recebido das operadoras. Esse percentual representa um aumento de quatro pontos percentuais em relação a 2023.

As retenções de pagamentos, conhecidas como glosas, acontecem quando as operadoras questionam ou solicitam mais informações sobre as cobranças. Apesar disso, grande parte dos valores acaba sendo liberada após as discussões.

A Anahp alerta que essa prática recorrente das operadoras tem levado à redução de investimentos nos hospitais, afetando a expansão de leitos, a aquisição de novos equipamentos e a abertura de unidades de terapia intensiva (UTI).

Em 2024, 41,7% dos hospitais afirmaram ter realizado investimentos menores do que o planejado, de acordo com a pesquisa. O diretor-executivo da Anahp, Antônio Britto, destaca a situação de "aperto" devido aos juros altos, que dificultam a obtenção de empréstimos bancários.

Britto informa que a taxa de contas hospitalares glosadas, que historicamente variava entre 3% e 5%, saltou para 9% em 2022, 11,8% em 2023 e quase 16% em 2024. Ele ressalta que, embora a glosa seja um direito do pagador para analisar as contas, as operadoras a transformaram em uma forma de administrar os pagamentos aos hospitais, retardando o processo.

A Anahp estima que os números sejam ainda maiores se consideradas as mais de 175 instituições associadas, incluindo hospitais renomados como Albert Einstein, Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz, que representam cerca de 25% das despesas assistenciais na saúde suplementar.

Entre as justificativas para as glosas, a Anahp aponta questionamentos sobre a necessidade dos procedimentos, mesmo quando estes já haviam sido autorizados pelas operadoras. A pesquisa indica que apenas 2% do total glosado em 2024 foi mantido, comprovando que a maior parte das retenções não era justificada.

Outro ponto de preocupação é o aumento do tempo médio para o pagamento das contas hospitalares, que saltou de 60-70 dias para 120 dias em 2024. Em muitos casos, as operadoras exigem descontos dos hospitais para liberar os valores devidos.

Essa situação tem levado os hospitais a atrasarem os pagamentos aos fornecedores, especialmente os de equipamentos médicos, impactando toda a cadeia de saúde. A Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (Abraidi) estima que os fornecedores deixaram de receber R$ 3,8 bilhões em 2024 devido à retenção de faturamento, glosas injustificadas e inadimplência.

O presidente do conselho de administração da Abraidi, Sérgio Rocha, manifesta preocupação com o desequilíbrio nas relações entre operadoras e fornecedores, onde estes últimos são forçados a aceitar condições unilaterais ou são excluídos do mercado. Ele critica as práticas que prejudicam o fluxo de caixa das empresas e afetam toda a cadeia de saúde.

Em resposta, a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) afirma que a relação entre operadoras e prestadores de serviços hospitalares é individual. A entidade argumenta que dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram uma queda no tempo médio de pagamento de procedimentos, demonstrando um esforço das operadoras na avaliação de glosas administrativas.

A diretora-executiva da Federação Nacional de Saúde Suplementar (Fenasaúde), Vera Valente, defende uma análise mais aprofundada do funcionamento dos planos de saúde, destacando a diversidade de realidades entre as operadoras. A Fenasaúde argumenta que os dados da ANS mostram um crescimento de 58% no valor pago pelas operadoras aos hospitais privados entre 2018 e 2023, atingindo R$ 107,8 bilhões.

A entidade também informa que o tempo médio entre a apresentação da cobrança e o pagamento pelas operadoras foi de 32,8 dias no primeiro semestre de 2024, o menor da série anual da ANS. A Fenasaúde alega que as glosas representaram 7,4% dos valores dos serviços prestados e refletem a necessidade de gestão dos recursos do sistema, visando o controle de custos e o benefício dos usuários. Segundo a Fenasaúde, as glosas ocorrem apenas quando são identificadas inconformidades nos processos de cobrança.